Temas Guia da Saúde
Desmistificar a Epilepsia
A epilepsia é uma doença neurológica crónica, que ainda hoje permanece uma incógnita para algumas pessoas. Daí surge a necessidade de desmistificar esta doença, esclarecer alguns aspectos relacionados com a mesma, e informar acerca de como pode ajudar uma pessoa que esteja com um ataque.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (2009), cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem desta patologia, sendo que aproximadamente 90% dessas pessoas vivem em países desenvolvidos. A epilepsia é controlada através da medicação e do tratamento adequado em cerca de 70% dos casos; contudo, cerca de três quartos das pessoas não recebem o tratamento adequado necessário. Em Portugal, de acordo com a Liga Portuguesa contra a Epilepsia, em cada mil portugueses, 4 a 7 pessoas sofrem desta doença. É uma doença que pode iniciar-se em qualquer idade, sendo mais comum até aos 25 e depois dos 65 anos de idade.

As pessoas com epilepsia e as suas famílias podem sofrer de estigma e discriminação em muitas regiões do mundo. Durante largos séculos, acreditou-se que a epilepsia pudesse ser uma doença contagiosa ou mental, provocada por espíritos, e ainda hoje não é raro as pessoas menos esclarecidas discriminarem os epilépticos ou procurarem medicinas alternativas para a combaterem. Foi apenas em 1873 que um neurologista inglês estabeleceu que a epilepsia se devia a descargas no cérebro.

A epilepsia é uma alteração na actividade eléctrica do cérebro, temporária e reversível, que produz manifestações motoras, sensitivas, sensoriais ou psíquicas. Contudo, para ser considerada epilepsia, deve ser excluída a convulsão causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos, já que são classificadas diferentemente, e dado que qualquer pessoa pode sofrer um ataque epiléptico, devido a, por exemplo, um choque eléctrico, deficiência em oxigénio, traumatismo craniano, diminuição do açúcar no sangue, abuso de drogas, ou mesmo febre (as crianças podem ter convulsões quando têm febre; nestes casos, são chamadas “convulsões febris”, mas não representam epilepsia).

Contudo, o tipo de epilepsia mais frequente (presente em cada 6 de 10 pessoas com epilepsia) é a denominada epilepsia idiopática, e não tem causa conhecida. Os restantes tipos de epilepsia são designados epilepsia secundária, e podem ser causados pelos factores anteriormente descritos.

Os ataques ou crises epilépticas arrastam consigo uma carga psicológica e social muito intensa, o que provoca nas pessoas e nas suas famílias um grande medo e ansiedade. Sendo o cérebro um órgão complexo que controla e regula todas as nossas acções (movimentos, sensações, pensamentos, emoções, sendo também a sede da memória e regulando a actividade dos outros órgãos do corpo humano), um ataque epiléptico pode originar alterações em qualquer destas componentes.

Num ataque epiléptico, as células cerebrais (os "neurónios") que trabalham em conjunto e comunicam através de sinais eléctricos, sofrem um "curto-circuito", uma descarga eléctrica, e parte ou todas essas células descarregam-se anormalmente, resultando então o ataque.

As características dos ataques epilépticos variam consoante a área do cérebro em que ocorre a descarga eléctrica. Esta pode ser generalizada (envolvendo todo o cérebro), ou parcial (envolvendo apenas uma parte do cérebro).

Assim, podem suceder os mais variados sintomas. Nas crises parciais, pode ou não haver alteração da consciência e podem suceder de convulsões de um membro ou parte do mesmo, sensação de formigueiro ou picadas percorrendo um membro, sensações abdominais, percepção de gostos ou cheiros esquisitos, fenómenos auditivos e visuais, alterações a nível do comportamento e humor.

De todas as crises generalizadas, as mais frequentes e conhecidas são as denominadas “tónico-clónicas”, em que, na fase tónica, a pessoa perde subitamente o conhecimento, cai, e o corpo torna-se rígido e na fase clónica, todo o corpo é percorrido por convulsões, com contracções involuntárias dos músculos, como movimentos desordenados, ou outras reacções anormais como desvio dos olhos e tremores. Segue-se uma fase de relaxamento muscular, em que pode haver perda de urina, e a consciência recupera-se lentamente. Frequentemente, há mordedura da língua.

Existem outras crises generalizadas, como “as ausências”, caracterizadas por uma breve interrupção da consciência, sem outros sinais, excepto um breve pestanejar, habitualmente descritas como "paragens", de que o próprio não se dá conta; ou as crises “atónicas”, com quedas súbitas, sem perda do conhecimento; ou “mioclónicas”, constando de contracções musculares dos membros, surgindo após o acordar, referidas como "esticões".

Contudo, decerto que ao longo da sua vida já se deparou com episódios de pessoas com crises tónico-clónicas, e nesses casos surge sempre a dúvida: que fazer para ajudar?

Antes de mais, é necessário desmistificar alguns factos: não deve nunca colocar nada na boca da pessoa (colheres, lenços, ou outros objectos). É verdade que pode ocorrer mordedura da língua, e supostamente a colocação de um objecto na boca da pessoa serviria para esta não sufocar; contudo, a mordedura quando ocorre é durante poucos segundos, e tal situação não se verifica. Para além disso, não deve imobilizar a pessoa durante a fase dos movimentos bruscos. Deixe que ela termine as contracções musculares. Também não deve tentar acordar a pessoa, ou força-la a levantar-se; e não deve ainda dar-lhe de beber.

Deve, então:
- Manter a calma e acalmar as pessoas à volta, para que se possa, efectivamente, ajudar a pessoa;
- Deitar a pessoa (caso ela esteja de pé ou sentada), e afastar todos os objectos onde a pessoa se possa magoar, evitando quedas e traumas;
- Acabada a fase dos movimentos bruscos, colocar a pessoa de lado com a cabeça baixa, de modo a que a saliva possa escorrer para fora da boca (evitar aspiração de vómito) – posição lateral de segurança;
- Desapertar a roupa à volta do pescoço, ponha qualquer coisa macia debaixo da cabeça, ou amparar esta com a sua mão, impedindo-a de bater no chão ou contra objectos;
- Afastar os curiosos, dando espaço para a pessoa;
- Permitir que a pessoa descanse ou até mesmo durma após a crise;
- Permanecer junto da pessoa até que volte a respirar calmamente e comece a acordar
- Oferecer ajuda no regresso a casa ou chamar alguém da família;
- Se possível deve anotar os acontecimentos relacionados com a crise (início da crise; duração da crise; eventos significativos anteriores à crise; se há incontinência urinária ou fecal; como são as contracções musculares; nível de consciência após a crise).

Deve procurar ajuda médica se a pessoa se feriu gravemente com a
crise (por exemplo, se bateu a cabeça em algum objecto) ou se a crise dura mais do que o normal para aquela pessoa (se não se souber a duração normal da crise para a pessoa em questão, tomar como limite 5 minutos).

Assim, poderá ajudar a pessoa durante a crise, e ter um papel activo como cidadão.


conteúdo gentilmente cedido por parceiro guiadafamilia.com

Enf. Raquel Espadaneira
Enfermeira Colaboradora da Primus Care
www.primuscare.pt

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"Tenho consultado o vosso site desde a gravidez da Carolina,felicito-os pelos artigos e temas pois foram de grande ajuda. Ter outro bébé ao fim de 20 anos e já com 45 de idade não foi fácil,muitas dúvidas e incertezas...mas, o guia da família ajudou-me imenso, por isso, o meu muito obrigada"
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